Nuremberg
Diretor
James Vanderbilt
Gênero
Drama
Elenco
Rami Malek, Russell Crowe, Michael Shannon
Roteirista
James Vanderbilt
Estúdio
Diamond Films
Duração
148 minutos
Data de lançamento
26 de março de 2026
Quando um personagem do filme diz que o nazismo aconteceu porque pessoas comuns deixaram que acontecesse, é ao mesmo tempo uma fala batida e necessária, mas sobretudo um presságio. “Nuremberg”, mais novo filme escrito e dirigido por James Vanderbilt e adaptado do livro “O nazista e o psiquiatra”, de Jack El-Hai, usa um período histórico para fazer um alerta aos nossos dias atuais. É impossível acompanhar o enredo de “Nuremberg” e não associá-lo diretamente com movimentos que vêm ganhando força em diversas frentes da sociedade a nível global. Por mais que o filme tenha como ponto central a dinâmica entre um psiquiatra e o sucessor de Hitler, o que mais ressoa com o espectador são essas semelhanças. É uma reflexão contundente e ampla sobre como esse tipo de ideia, que corrobora o nascimento e manutenção do fascimos e do nazismo, surge aos poucos, discretamente, tem um alto potencial de destruição e pode se embrenhar no cérebro de qualquer um que esteja minimamente inclinado.
Nuremberg foi a cidade que recebeu os homens de alto escalão do Terceiro Reich depois do suicídio de Hitler, enquanto eles esperam pela decisão dos Aliados em relaçao ao seu destino. Em guerras anteriores, os líderes dos países derrotados costumavam ser mortos sem qualquer escrutínio, mas nunca antes houvera algo como um “crime contra a humanidade”, como foi com a Alemanha e a perseguição e genocídio de judeus. Diante dessa situação única, o juiz associado da Suprema Corte estadunidense, Robert H. Jackson (Michael Shannon), decide se empenhar para fazer deste um caso modelo: ele quer que os responsáveis pelos crimes da Alemanha passem por um julgamento, com representantes de todas as nações envolvidas, para que só então seus destinos fossem determinados. Fazer com que esse julgamento aconteça é uma tarefa cheia de negociações políticas da qual vemos apenas alguns pormenores. A trama segue um personagem que chega depois e se torna uma peça central da acusação, o psiquiatra estadunidense Douglas Kelly (Rami Malek), escolhido a dedo por Robert H. Jackson para acompanhar os alemães presos e se certificar de que eles não cometeriam suicídio para se livrar das consequências de seus atos. Apesar de este ser o objetivo oficial, há segundas intenções tanto do psiquiatra quanto de seu contratante, Kelly quer transformar a experiência num livro, já Jackson espera que as observações de Kelly em relação aos “pacientes” possam ajudá-lo a preparar melhor seu caso contra eles.
A questão ética existe, mas é facilmente superada. Kelly não está particularmente interessado em manter a confidencialidade entre médico e paciente e muito cedo passa a compartilhar seus insights. O principal paciente, ou objeto de estudo, de Kelly é ninguém menos que o segundo no comando do Reich e sucessor de Hitler, Hermann Göring (Russell Crowe). É facilmente compreensível o magnetismo de Göring para Kelly, ele é um homem de aparência comum, com fala calma e respeitosa, postura firme, mas não prepotente e até mesmo um charme que aparece acompanhado de um bom humor. Poderia ser um homem qualquer, mas você adiciona a essas características o fato de que ele fez parte de um movimento que matou mais de 6 milhões de pessoas e você tem um manipulador perfeito. Parte do interesse de Kelly não só em Göring, mas também nos outros membros de alto escalão do partido nazista, está na tentativa de entender de onde vem tamanha “maldade”. Existe uma característica comum entre essas pessoas que faz com que elas sejam coniventes, e até mesmo ativas, com as atrocidades cometidas pelo nazismo.
A dinâmica entre Kelly e Göring se assemelha a um jogo de gato e rato, em que ambos acreditam ser o gato, mas nem sempre são. Kelly possui seu estudo e experiência a seu favor, mas Göring não era o preferido de Hitler por mero acaso, ele é um personagem que se denuncia apenas em pequenos detalhes, nuances que poderiam passar despercebidas se um ator menos competente estivesse interpretando-o. É impossível falar de “Nuremberg”, inclusive, sem falar de Russell Crowe, que depois de uma sequência de filmes ruins e performances pouco inspiradas (como O Exorcismo e A Teia), nos lembra do porquê de ele ser um dos grandes de Hollywood. Ele consegue fazer com que carisma e amedrontamento coexistam, e acerta em cheio todas as vezes em que um deve se sobressair em relação ao outro. É uma performance fina e coerente, e parte crucial da construção de Göring. Malek, como deuteragonista, tem uma interpretação mais solar, às vezes beirando o cômico, mas ainda consistente e um bom contraponto para Göring.
O que parece ser o maior objetivo de “Nuremberg”, entretanto, é a mensagem acerca do que o homem é capaz de fazer. A questão da humanidade de Göring, e dos demais nazistas capturados, fala diretamente com o momento político atual, em que vemos diversos movimentos análogos ao nazismo ganhando força cada vez menos silenciosamente. O filme não tem medo de deixar claro seu objetivo, apesar de se ater aos fatos históricos, e é justamente aí que está o seu maior impacto. Por mais que muito de sua construção seja mais genérica, procedural, embora envolvente, o discurso fala mais alto e ultrapassa a obra para ressoar com o espectador em níveis mais profundos.
Por Júlia Rezende