O Rei da Internet
Diretor
Fabrício Bittar
Elenco
João Guilherme, Marcelo Serrado, Emílio de Mello
Roteirista
Fabrício Bittar e Vinícius Perez
Estúdio
Manequim Filmes
Duração
135 minutos
Data de lançamento
14 de maio de 2026
Em 2004, diversos estados do Nordeste brasileiro ficaram sem Internet por uma semana. O motivo? Um adolescente de 15 anos atacou uma rede por conta de uma espécie de desafio. Esse menino é Daniel Nascimento, ele ficou conhecido como “o maior hacker do Brasil” e agora ganhou uma cinebiografia que detalha sua ascensão e queda dentro desse universo. Dirigido por Fabrício Bittar, o longa começa pelo fim. Antes mesmo de descobrirmos como Daniel ganhou esse título, ficamos sabendo que tudo foi por água abaixo: a cena de abertura é ele sendo pego pela Polícia Federal, assim como seus “comparsas”. Depois disso, somos levados ao início da história de Daniel, que coincide com o início da popularização da Internet no Brasil e é esse fator que torna a história possível (por mais que pareça impossível muitas vezes).
Aprendemos sobre quem é Daniel (João Guilherme) a partir dele próprio, com uma narração contínua e a quebra da quarta parede, Daniel nos leva pelos passos mais importantes que começou a trilhar ainda no começo da adolescência. Esse início não é exatamente inesperado, assim como muitos adolescentes dos anos 00, o computador e a Internet eram grandes novidades, mistérios a serem desvendados, e foi assim para Daniel também. Enquanto ele sofria bullying na escola por ser um jovem mais tímido e sem habilidades óbvias, encontrou na “informática” uma chance de ser bom em algo. O primeiro computador foi dado pelos pais, ainda sem saber as coisas que um simples objeto como aquele poderia conter. A princípio, Daniel usava o computador como qualquer outro menino de 14 anos (pornografia, de acordo com o filme), mas ele era curioso, adentrando cada vez mais nos cantos mais escondidos da Internet. Logo ele estava fazendo parte de chats e grupos de hackers e testando novas habilidades – e logo estava viciado.
Enquanto a maioria dos vícios só traz ônus, o vício de Daniel só parecia ajudá-lo, principalmente depois que ele começou a descobrir que poderia transformar seu tempo online em recompensas físicas, do mundo real. Em um dos seus primeiros grandes feitos, ele hackeou o sistema da Editora Abril para assinar todas as suas revistas, em especial as Playboys, o que fez dele um garoto popular na escola, e também abriu seus olhos para outras possibilidades. O início dos anos 00 era também o início do desbravamento da Internet, da venda online, mas por ainda estar engatinhando, era também uma terra sem lei e, principalmente, sem segurança. Se hoje ainda existem brechas para golpes virtuais, 20 anos atrás era muito pior. O filme faz um ótimo trabalho em nos transportar de volta para esse tempo, a nostalgia está presente em todos os elementos e é fácil sentir que estamos de volta aos tempos de Orkut, MSN e chats; claramente é um filme feito por pessoas que viveram essa época. A experiência de Daniel, no entanto, vai se distanciando do ordinário quando ele aprofunda seus estudos e começa a se relacionar com hackers do mundo todo. Depois de provar sua excelência (o incidente que gera a falta de Internet no Nordeste), ele é procurado por um hacker profissional, e é aí que sua experiência vira algo único.
Antes mesmo de chegar aos 16 anos, Daniel sai de casa e se muda para Porto Alegre para se juntar a uma quadrilha de hackers chefiada pelo empresário Fábio (Marcelo Serrado). Ele ganha um quarto de hotel de luxo, com tudo que tem direito, além de drogas, bebida, sexo e dinheiro sempre à disposição. O que esse tipo de liberdade pode significar para um adolescente que nunca teve acesso a nada disso antes? “O Rei da Internet” responde. Há algumas formas diferentes de encarar o filme. É uma cinebiografia, é um true crime da era digital, é uma ficção (a história é baseada em fatos, mas como o próprio Daniel diz, quem está narrando é um hacker que já ganhou a vida enganando). O filme brilha mais quando foca na experiência de Daniel. É um exercício interessante para o espectador, a montagem frenética, com cortes excessivos e uma amálgama de novos elementos a cada segundo: cores, cortes, trilha sonora, seguidos por festas, luzes, mulheres, drogas – e repete. Ao assistirmos, temos pouco tempo para parar e respirar, fazer sentido das coisas ou tentar julgar as decisões de Daniel, mas é difícil pensar em algo que se aproxime mais da experiência desse adolescente que, de um dia para o outro, tem tudo ao alcance de suas mãos. A vida de Daniel, assim como o filme em si, é recheada de excessos. Ele logo se perde numa quantidade absurda de álcool, festas estrondosas de gente famosa, carrões e drogas, e o filme faz questão de mostrar tudo em detalhes, talvez um pouco a mais do que o necessário, mas é difícil pensar em outra forma de fazer transbordar essa experiência ímpar para fora da tela.
Como cinebiografia, “O Rei da Internet” não esconde sua admiração pelo protagonista. Mesmo quando há um reconhecimento em relação às vítimas dos golpes criados por Daniel e pela quadrilha, ele é minimizado. Ele não é responsabilizado, narrativamente, pelas suas ações ou omissões, as consequências de seus crimes dizem respeito apenas a ele mesmo. Por mais que possamos argumentar a parcialidade do filme, vale dizer que não há muito espaço para um falso moralismo. Apesar de levantar a questão sobre se o crime compensa ou não, o filme está mais interessado em entender a posição de Daniel dentro desse contexto e tem êxito em nos colocar em seu lugar. Como hacker, Daniel aprende a enxergar brechas onde a pessoa comum não as vê, e isso abre um mundo de possibilidades. Se utilizando da máxima de que, no Brasil, todo mundo se aproveita das falhas da lei de uma forma ou outra, coloca Daniel como mais um peão nesse jogo, enquanto aproveita para nos perguntar se, no lugar dele, seríamos capazes de conter a vontade para nos manter “direitos”, mesmo sabendo que muito provavelmente não haverá ninguém para nos parar.
A reflexão moral não é exatamente o forte de “O Rei da Internet”, mas como não tenta fazer desse o seu mote, deixa espaço para que nos impressione pelo entretenimento e pelas situações inusitadas. É uma grande produção, muito bem feita em todos os seus aspectos. A direção de arte, com fortes inspirações em ícones dos anos 00, como a MTV, recria com louvor as lembranças daqueles com 30+, o roteiro entende não só os personagens e a época, mas também sua linguagem e particularidades, ainda que deixe a desejar no que diz respeito às personagens femininas. A atuação de João Guilherme é uma surpresa positiva, por mais que ele trabalhe como ator desde pequeno, há ainda um preconceito em relação à sua imagem, mas aqui ele prova que tem alcance e capacidade para desempenhar qualquer tipo de papel. “O Rei da Internet” dá a sensação de um delírio adolescente, um mundo em que tudo é possível e as consequências não são palpáveis o bastante para servirem de impedimento para qualquer coisa. O embate moral poderia ser mais amplo, ou ao menos mais presente, mas apesar da singularidade dos fatos, Fabrício Bittar consegue criar um universo estranhamente imersível e relacionável.
Por Júlia Rezende