Sirāt
Diretor
Oliver Laxe
Gênero
Drama
Elenco
Sergi López, Bruno Núñez Arjona, Stefania Gadda
Roteirista
Santiago Fillol e Oliver Laxe
Estúdio
Duração
115 minutos
Data de lançamento
26 de fevereiro de 2026
Em algum momento de Sirat, um dos personagens diz que a música tocando não é para ouvir, e sim para dançar. Essa parece ser a máxima também para o enredo do filme. Pouco há em Sirat que possa ser considerado uma trama de fato. Não há grandes motivações, desfechos ou clímax, muito menos desenvolvimento de personagens. A identificação do espectador com a obra depende de como as viradas bruscas do roteiro, junto com o potente design de som, serão suficientes para fazê-lo sentir algo. Comigo, apesar do começo potente e de uma reviravolta extremamente impactante e inesperada, o que se sucedeu serviu apenas para distanciar dos acontecimentos anteriores e criar um abismo em relação às imagens e os sentidos. Apesar das duas indicações ao Oscar de 2026 (Melhor Filme Internacional e Melhor Design de Som), Sirāt é mais conceito e cenário do que filme propriamente dito.
No longa escrito e dirigido por Oliver Laxe, logo de cara somos colocados num ambiente nada familiar para a maioria: uma rave clandestina no meio de um deserto no Egito. A música alta com a batida marcante do tecno embala a dança de todo o tipo de gente. Há um abandono e uma liberdade nessa dança que se reflete no cenário repleto de areia. Pelo primeiro quarto de hora, esses elementos tomam o lugar do diálogo para contar a história. Enquanto deserto, caixas de som e clubbers parecem fazer parte da mesma unidade, pai e filho destoam de tudo. Luis (Segi López), um homem comum de meia-idade e seu filho adolescente Esteban (Bruno Nuñez Arjona) passam alheios à música ou à dança, eles só estão lá com o objetivo de encontrar a filha mais velha de Luis, que desapareceu há alguns meses e que Luis acredita que pode estar em uma dessas raves. Os dois andam de grupo em grupo mostrando uma foto da filha à procura de informações, e quando militares aparecem de repente, acabando com a festa, Luis decide seguir um dos grupos (que pareceu mais simpático à sua missão) para a próxima rave.
A jornada de Luis e do grupo da rave é difícil desde o princípio. O grupo tenta avisar que o carro de Luis, uma van simples, não vai conseguir fazer todo o trajeto – o grupo mesmo se divide em 2 caminhões muito mais preparados para a longa distância na areia, mas Luis é determinado e decide segui-los mesmo assim. Entre falta de gasolina, comida escassa e problemas com o veículo, conhecemos um pouco mais dos personagens, mas não o suficiente para criarmos qualquer tipo de conexão. Os diálogos, alguns mais profundos que outros, sempre acabam antes de chegar a algum lugar concreto ou responder qualquer questão. A filha desapareceu ou fugiu? Quem era Luis antes de sair pelo deserto? Por que o filho, uma criança, vai junto? Essas são apenas algumas das perguntas que poderiam ser feitas e que jamais são respondidas. É verdade que um filme não precisa dar explicações para ser compreendido, mas Sirat parece não fazer a menor questão de se aprofundar em qualquer tema. Até mesmo o pano de fundo de guerra é tratado de forma superficial – ouve-se através do rádio o começo do que é descrito como a Terceira Guerra Mundial, mas qualquer informação não passa de uma ou duas frases distantes.
Há algo intrigante no modo como os personagens, os frequentadores das raves, escolhem viver uma vida alheia à sociedade, até mesmo na iminência de uma guerra. Eles parecem ser imunes às convenções da sociedade e, em alguma momento, parece ter encontrado o real sentido de liberdade, mas essa sensação é substituída por algo muito pior antes de se concretizar. Um acontecimento divide o filme num “antes e depois” muito claro. É um acontecimento repentino e devastador que renovou minha atenção e interesse em relação ao filme, que já começava a ficar massante ao chegar nesse ponto e Oliver Laxe poderia ter escolhido diversos caminhos para lidar com as consequências desse ato, mas o que de fato acontece é absolutamente inimaginável – e igualmente absurdo.
Depois desse momento decisivo, tudo que há de positivo até ali é abafado e substituído por uma sequência de tragédias que nada dizem e a intenção da direção fica suspensa. O que quer dizer o sofrimento apenas para sofrer? Se há algum propósito para os acontecimentos, ele está escondido em tantas camadas que apenas alguém muito dedicado será capaz de desvendá-lo, mas pouco do filme é inspirador o suficiente para te fazer querer chegar lá. Apesar de aguçar sentidos, contar uma história muito mais pelas sensações do que pelas palavras e fazer um show visual combinado com o som, a maioria das ideias contidas em Sirat parecem apenas inacabadas, como pensamentos abandonados uma vez que se aprofundariam. Quem consegue mergulhar nesse universo sem questionamentos é capaz de encontrar um filme no mínimo marcante, mas qualquer um ligeiramente mais apegado a contexto encontrará dificuldade para identificar uma narrativa.
Por Júlia Rezende