Uma Segunda Chance
Diretor
Vanessa Caswill
Elenco
Maika Monroe, Tyriq Withers, Zoe Kosovic
Roteirista
Colleen Hoover e Lauren Levine
Estúdio
Universal Pictures
Duração
114 minutos
Data de lançamento
19 de março de 2026
Colleen Hoover está no caminho para se tornar uma das autoras com mais obras literárias adaptadas para o cinema de sua geração. Depois de É Assim que Acaba e Se Não Fosse Você, temos agora Uma Segunda Chance e Verity chegará às telonas ainda esse ano. Mesmo sendo o terceiro filme proveniente de suas obras, ainda é difícil entender o que faz com que suas histórias arrebatem tantos fãs ao redor do mundo. Dentre os três, esse certamente é o mais “inofensivo”, mas escancara o padrão desconcertante da autora de escolher assuntos sérios e espinhosos para servir como mero pano de fundo para suas histórias de amor – essas muito mais simples e unidimensionais. É algo que já me causou estranheza em “É Assim que Acaba”, quando a violência doméstica é apresentada de forma tão simplória que chega a ser leviana e o “vilão” é capaz de encontrar redenção apenas pela força do amor. A mesma coisa aconteceu em “Se Não Fosse Você”, um acidente trágico que destrói duas famílias é rapidamente superado para que os envolvidos pudessem engatar relacionamentos carregados de clichês. Em “Uma Segunda Chance”, o que está em jogo é ainda maior.
O filme começa com Kenna (Maika Monroe) recém-saída da prisão. Logo descobrimos que ela recebeu uma sentença de 7 anos por ter sido responsável por um acidente de carro que matou o seu então namorado, Scotty (Rudy Pankow). Para piorar a situação, Kenna engravidou logo antes do acidente, acabou passando por toda a gravidez na prisão e, quando sua filha nasceu, foram separadas logo no segundo dia, porque Kenna perdeu todos seus direitos parentais e a menina foi viver com os avós paternos. Agora, já em liberdade, Kenna quer se aproximar da filha novamente e recomeçar a sua vida, mas está completamente sozinha, sem qualquer recurso e ainda é odiada pelos pais de Scotty, que a culpam pela morte do filho. A história de uma mãe que luta para poder se reaproximar da filha poderia ser uma história convincente por si só, mas o filme nunca parece decidir qual o verdadeiro foco: a história entre mãe e filha ou o novo e repentino romance entre Kenna e Ledger (Tyriq Ward).
Quando Kenna sai da prisão e tenta chegar perto da filha, o primeiro lugar que ela vai é uma livraria que gostava de visitar com Scotty, mas, chegando lá descobre que não é mais uma livraria, e sim um bar (que se chama “A Livraria”) e é propriedade de Ledger. Ledger não a conhece, mas Kenna sabe quem ele é: o melhor amigo de Scotty, mas que ela nunca havia encontrado pessoalmente. Apesar de saber quem Ledger é e estar supostamente focada em retomar o contato com a filha, Kenna flerta com Ledger logo de cara e o clima entre eles é de romance mesmo antes de algo concreto acontecer – e antes de Ledger descobrir quem Kenna realmente é. A química entre eles é crível, muito por conta da atuação de Maika Monroe, que consegue adicionar profundidade à personagem mesmo quando o roteiro não lhe dá tanto com o que trabalhar. A forma como a atriz interpreta a resiliência de Kenna faz com que as inúmeras cenas da personagem sofrendo (sem dinheiro, sem emprego, sem carro, andando quilômetros e quilômetros na chuva) sejam mais convincentes e menos forçadas, ainda que pouco originais.
Há, inclusive, uma disparidade enorme entre o desenvolvimento dos personagens Kenna e Ledger. Enquanto sabemos mais sobre o passado e motivações de Kenna (pouco, mas sabemos), é mais difícil entender Ledger. Sabemos que ele era um jogador de futebol da NFL e parou de jogar por conta de um machucado no ombro, aparentemente é por conta dessa carreira que não estava perto de Scotty na época que antecedeu o acidente, mas por que ele não chegou a ver ao menos uma foto de Kenna não sabemos. É especialmente estranho quando consideramos que, depois da morte de Scotty, Ledger basicamente substituiu o amigo em relação à família. Ledger mora do outro lado da rua da casa de Grace (Lauren Graham) e Patrick (Bradley Whitford) Landry, os pais de Scotty, que o tratam como se fosse família. A filha de Scotty e Kenna, Diem, também é próxima de Ledger como se ele fosse um pai, ou ao menos um irmão mais velho. Sobre a família ou a vida pessoal de Ledger nos últimos anos, não sabemos nada. Ele parece ter um único amigo, a família de Scotty e tempo de sobra pra se envolver, e tentar resolver todos os problemas da vida de Kenna. “Uma Segunda Chance” é inofensivo no que diz respeito a sua temática, mas incomoda quando dá o mesmo nível de importância para uma mãe procurando a filha e uma mulher se apaixonando pelo melhor amigo de seu falecido namorado, além de não trazer nenhum desdobramento minimamente inesperado. Com uma ou outra cena mais carismática, é um filme que funciona para matar o tempo, mas que se recusa a ser mais que um romance superficial.
Por Júlia Rezende