7,8/10

Valor Sentimental

Diretor

Joachim Trier

Gênero

Drama

Elenco

Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Elle Fanning

Roteirista

Joachim Trier, Eskil Vogt

Estúdio

MUBI

Duração

133

Data de lançamento

25 de dezembro de 2025

Valor Sentimental retrata o relacionamento conturbado entre um pai e suas duas filhas quando Gustav, um diretor renomado e distante, tenta voltar aos holofotes oferecendo à filha Nora o papel principal de seu novo filme; após a recusa, ele escala a jovem estrela de Hollywood Rachel Kemp, que se vê no centro de uma dinâmica familiar íntima e espinhosa.

“Valor Sentimental” é daqueles filmes raros que conseguem ser grandes sem precisar fazer barulho. Não há aqui a histeria emocional de tantos dramas familiares contemporâneos, nem a necessidade de converter cada conflito em catarse explícita. O que o filme faz é mais difícil: sustentar tensão, desconforto e verdade a partir de um material humano miúdo, áspero e profundamente reconhecível. É um drama sobre afeto contaminado, sobre o peso que um artista pode impor à própria família e, sobretudo, sobre a forma como o talento, quando atravessado por ego, vaidade e carência, muitas vezes se torna incapaz de amar sem encenar.

O grande eixo do longa está no triângulo formado entre o pai, a filha e a atriz que entra nesse núcleo como elemento externo. É nessa dinâmica que o filme encontra sua força, sua densidade e também sua inteligência. O pai vivido por Stellan Skarsgård não é um monstro simplório, desses que o roteiro molda para facilitar condenações morais. O incômodo vem justamente do contrário. Ele é espirituoso, carismático, aparentemente sofisticado, mas emocionalmente tosco de um modo muito específico: o de quem passou a vida inteira aprendendo a transformar experiência em obra e perdeu, no caminho, a capacidade de se relacionar sem mediação. Há homens assim, e o filme entende muito bem o tipo de estrago que eles deixam para trás.

Renate Reinsve, como a filha em conflito direto com esse pai, entrega a atuação mais sensível do longa. Há uma contenção muito precisa no modo como ela conduz o ressentimento da personagem, sem cair na tentação de transformá lo em explosão dramática fácil. O que aparece em cena é mais duro e mais interessante: um corpo permanentemente armado, uma fala que mede distância, uma presença que já aprendeu a se defender antes mesmo da conversa começar. É uma atuação de detalhe, de postura e de silêncio, e justamente por isso tão forte. Skarsgård, por sua vez, encontra o equilíbrio difícil entre magnetismo e repulsa. Em nenhum momento o personagem perde complexidade. Mesmo quando é menor, ele continua convincente; mesmo quando é patético, continua perigoso.

A entrada de Elle Fanning completa esse desenho com bastante inteligência. Sua personagem, que chega de fora, funciona menos como acessório e mais como catalisadora. Há um brilho, uma energia e um entusiasmo profissional que contrastam com o ambiente carregado que a cerca, e o filme sabe usar esse contraste com precisão. Ela não está ali apenas para ampliar apelo internacional ou arejar a narrativa. Sua presença reorganiza o espaço dramático, porque introduz um olhar novo dentro de uma casa e de uma história saturadas de memória, ressentimento e camadas mal resolvidas. O que parecia apenas um encontro profissional rapidamente revela outra natureza: a de um envolvimento involuntário com uma família que transforma qualquer relação em campo minado.

E a casa, nesse sentido, é quase um personagem. “Valor Sentimental” entende muito bem que certos espaços deixam de ser cenário e passam a funcionar como arquivo, como herança e, em muitos casos, como ferida. Cada cômodo parece atravessado por uma memória que ninguém conseguiu realmente elaborar. O filme trabalha esse espaço com uma força silenciosa, como se a arquitetura fosse a materialização do que essa família não consegue dizer em voz alta. Não é um recurso novo, mas aqui ele é usado com tanta precisão que a casa deixa de ser pano de fundo e passa a concentrar parte essencial da tensão dramática.

A comparação com “Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe” é inevitável e bastante pertinente. Os dois filmes observam uma figura paterna semelhante: o artista que transforma a própria trajetória numa espécie de salvo conduto moral e espera que os filhos compreendam, admirem e, se possível, perdoem. A diferença está na chave. Enquanto Noah Baumbach trabalha esse material de forma mais verbal, neurótica e por vezes saturada, “Valor Sentimental” escolhe a baixa voltagem. Há menos discurso, menos exasperação e menos necessidade de explicar tudo. Em compensação, sobra peso. O que em “Meyerowitz” aparece em atrito verbal, aqui aparece como permanência da cicatriz. E, em muitos momentos, isso machuca mais.

Também há mérito no modo como o filme recusa a lógica dominante da recompensa constante. Não é um longa interessado em disputar atenção com o celular, nem em distribuir estímulo a cada minuto para garantir adesão imediata. Exige presença, exige escuta e exige algum repertório emocional do espectador. Isso naturalmente afasta parte do público, mas não por se tratar de um filme hermético ou “difícil” no sentido mais preguiçoso do termo. O que ele pede é maturidade. Em troca, oferece algo que o cinema contemporâneo anda entregando cada vez menos: a sensação de que não se consumiu apenas uma história, mas se atravessou uma experiência.

No fim, “Valor Sentimental” encontra sua grande força no modo como transforma drama familiar em algo maior sem perder a escala íntima. É um filme sobre arte, herança, ego e afeto, mas também sobre o custo de viver ao redor de alguém que só sabe se expressar plenamente quando está criando. E quando um longa alcança esse nível de verdade, sustentado por atuações tão precisas e por uma encenação que sabe exatamente a hora de recuar, o resultado é aquilo que o cinema adulto raramente consegue hoje: um filme denso, incômodo e memorável.

10

Missão cumprida

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