SPENCER | UMA VISÃO SOLITÁRIA E MELANCÓLICA DA MENTE DE PRINCESA DIANA

Kristen Stewart é uma atriz que, assim como Robert Pattinson, conheceu a fama ao mesmo tempo que conheceu o lado mais duro das críticas, com seus papéis na saga Crepúsculo. Desde então, a atriz tem alternado entre atuações que agradaram aos críticos e outras nem tanto, mas Spencer talvez seja a obra que a coloca, oficialmente, no rol das grandes atrizes de sua geração, afinal de contas não é à toa que o filme recebeu aplausos de pé por 3 minutos após sua exibição no último Festival de Filmes de Venice.

Em Spencer, Kristen encara seu maior desafio até o momento, dar vida à uma das personagens mais adoradas da história recente e certamente a mais adorada pessoa da realeza britânica de todos os tempos, a eterna Lady Di. Diana já teve inúmeras representações em produções do audiovisual, mais recentemente na série “The Crown”, em que foi representada pela atriz Emma Corrin (papel esse que lhe rendeu indicações e prêmios) e logo será representada pela atriz Elizabeth Debicki), então nem precisamos dizer que as expectativas estavam lá em cima, não só pela atuação de Kristen, mas também pelo modo como as história e personalidade de Diana seriam retratadas.

Para retratar a experiência da Princesa Diana com a família real, foi escolhido um final de semana específico no qual se passa o filme inteiro. Um Natal em que Diana, atrasada e sozinha, se junta ao resto da família em Sandringham, onde também passou parte de sua infância, e que culminou no fim de seu relacionamento com o herdeiro do trono, Príncipe Charles. Desde o início é possível perceber as preferências do diretor Larraín para te fazer sentir na pele o que Diana (supostamente) sentia. Da cinematografia à trilha sonora, a quase todo momento temos a impressão de estar assistindo a um filme de terror ou, no mínimo, de muito suspense.

Se uma coisa fica evidente desde o princípio é que Diana é o maior – e único – foco nesse “conto de uma tragédia real”, como ele mesmo se descreve. É ela o centro das atenções durante as duas horas em que se passa a trama e a falta de espaço para outros personagens é absolutamente proposital, a solidão de Diana é presente e mais latente a cada cena que passa. Os longos corredores da casa de campo, lembrando inclusive o famoso hotel de “O Iluminado”, são sempre frios e vazios, com a ocasional presença de funcionários que mais parecem parte do cenário. Além da própria Diana, os únicos personagens que oferecem uma interação com qualquer resquício de humanidade são seus filhos, os príncipes William e Harry que, ainda jovens, apresentam uma fagulha de esperança para a vida de Diana. A funcionária da realeza Maggie (Sally Hawkins), uma personagem totalmente fictícia, também chega perto de oferecer uma amizade à princesa, dentro dos limites de suas funções. Maggie representa o mundo “normal”, fora da família real, mas que permanece inalcançável para Diana e a escolha de acrescentar essa personagem apenas enriquece a trama.

A família real é representada, principalmente, por uma breve aparição de Rainha Elizabeth II e de Príncipe Charles e ambos transparecem a ideal nada favorável que já vive no imaginário popular sobre o que a realeza representa, a frieza, a rigidez e a impessoalidade. Todos deixam claro que os membros da família real não passam de peças que servem à nação e à coroa, sem qualquer consideração às suas vontades e personalidades. É claro que é importante ressaltar e se lembrar que essa é apenas a visão de Larraín a respeito da coroa, em diversos momentos é possível sentir as licenças poéticas que estão ali para enfatizar sua versão de Diana, e nisso Larraín tem sucesso.

Muito se especula em relação à atuação de Kristen e uma possível indicação ao Oscar, mesmo após ter sido esnobada no SAG Awards (que muitas vezes serve como um termômetro para a Academia), e certamente é uma possibilidade. Aqui, Kristen consegue captar a alma da versão de Larraín da Princesa Diana e os maneirismos, que muitas vezes carrega de um papel para outro, são utilizados de forma singular e têm um resultado diferente de tudo que já fez antes e consegue passar a sensibilidade que o filme pede em todas suas cenas. Com atuações marcantes de outras grandes atrizes nessa temporada, uma indicação à Kristen ainda é uma aposta incerta, mas sua atuação deve ser celebrada e elogiada independente de qualquer resultado.

Spencer não é imparcial ou extremamente dependente do realismo, é clara a influência da visão do diretor e dos caminhos que ele escolheu para dar vida à essa Diana, e o resultado da trama dramática combinada com a atuação de Kristen é satisfatório, garantindo uma experiência quase que imersiva de empatia, sensibilidade e solidão de uma das figuras mais carismáticas da história moderna.