VEJA POR MIM | UM SUSPENSE DE INVASÃO DOMICILIAR COM TECNOLOGIA, MORAL DUVIDOSA E UMA PROTAGONISTA CEGA

Em 1967 foi lançado o clássico “Um Clarão nas Trevas”, em que Audrey Hepburn interpretava uma mulher cega que tinha sua casa invadida por três ladrões. Essa é também a premissa da produção canadense “Veja Por Mim”, mas já não estamos nos anos 60 e sim na década de 2020 e agora a tecnologia tem uma grande influência na nossa vida então, então ainda temos a história de uma mulher cega que tem sua casa invadida por três ladrões, mas dessa vez ela tem um app que a ajuda a enxergar com o auxílio da câmera de seu celular e de um membro do app.

Sophie (Skyler Davenport) é uma jovem que tinha uma carreira de muito sucesso no esqui, mas uma doença acometeu seus olhos, lhe tirando a visão. Desde então Sophie vive uma vida amargurada e, apesar da insistência de sua mãe para que ela voltasse a esquiar e competir, passa a fazer bicos cuidando de casas quando os proprietários estão viajando. Ela ainda aproveita para fazer um extra “subtraindo” um ou outro pertence das casas para revender depois, afinal de contas, quem suspeitaria de uma menina cega, não é mesmo? (Palavras dela, não minhas!)

Ao chegar em sua mais nova casa, a proprietária diz que sairá numa viagem de última hora e Sophie deve cuidar da casa e do gato. Naturalmente é uma casa gigante, linda, cheia de paredes de vidro e, é claro, completamente isolada de tudo e de todos, ou isso não seria um filme de suspense, não é mesmo? Sophie primeiro liga para seu amigo Cam (Keaton Kapla), que serve como um guia à distância e ajuda Sophie a se locomover e entender a arquitetura da casa por uma chamada de vídeo, mas quando a jovem escolhe um vinho cara para roubar e revender depois, Cam de repente tem uma crise de consciência e decide que não vai mais fazer parte do esquema (apesar de já ter participado antes), causando uma ruptura entre os dois.

Sophie está acostumada a se virar sozinha, mas quando se tranca acidentalmente para fora da casa depois de ativar o alarme de segurança, é obrigada a baixar o app “Veja Por Mim”. Baseado num app real, o “Veja Por Mim” conecta usuários cegos com pessoas que enxergam, para que através da câmera do celular, essas pessoas possam servir como olhos, para ver se a data de vencimento do leite ainda não chegou, por exemplo, ou como abrir uma porta desconhecida. Em sua segunda tentativa, Sophie é conectada com Kelly (Jessica Parker Kennedy), uma ex-militar que passa todo seu tempo jogando Call of Duty. Kelly usa sua experiência para ajudar Sophie com a porta e, milagrosamente, Sophie gosta dela, então salva seu contato no app – ainda bem, porque ela vai precisar.

Não é só o fator tecnológico que faz toda diferença para tornar essa uma história interessante apesar de não ser original, a atuação de Skyler Davenport também merece seus louros, também sem enxergar na “vida real” Davenport dá à Sophie todas as nuances necessárias para o thriller prender nossa atenção do começo ao fim, Sophie é cega, sim, mas essa está longe de ser sua principal característica, a ex-atleta é orgulhosa, sarcástica, autossuficiente e carrega em si um desgosto que permeia todas suas decisões, inclusive sua ambiguidade moral, que também colabora pra uma história mais divertida.

 Essa parte de introdução do filme é um pouco mais lenta do que deveria, mas quando cai a noite e dois homens entram na casa (liderados por um terceiro que se comunica pelo telefone) sem saber que tinha alguém ali, o suspense de verdade começa. Sem poder enxergar, é Kelly quem guia Sophie para que ela consiga se livrar dos ladrões e quando a situação complica de verdade, as horas de jogo de tiro em primeira pessoa combinadas com seu serviço no exército fazem de Kelly a pessoa perfeita para o trabalho.

“Veja Por Mim” tem a seu favor o roteiro de Adam Yorke e Tommy Gushue, que consegue subverter diversos clichês do gênero de suspense e principalmente do subgênero de invasão domiciliar, mesmo que acabe se apegando demais aos clichês que decide usar, e outro ponto a favor é a direção de Randall Okita, que sabe utilizar todos os elementos de filmagem para fortalecer o ar de suspense, garantindo uma tensão presente do começo ao fim.

O filme está bem longe de ser perfeito, existem alguns problemas de lógica e furos no roteiro, além de oportunidades desperdiçadas, como por exemplo as “habilidades” desenvolvidas por Sophie com seus outros sentidos depois de perder a visão, algo que é mostrado com inteligência nos primeiros minutos do filme e depois acaba sendo ignorado. O final também é um tanto quanto previsível, mas um toque inesperado lhe dá um pouco mais de valor. No final dos 90 minutos de filme, fica a sensação de se ter assistido a um bom filme, ainda que não inesquecível.