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‘Todo homem deve se criar’. Do diretor colombiano indicado ao Emmy Rodrigo Garcia, ‘Últimos Dias no Deserto’ conta uma versão do que pode ter acontecido a Jesus Cristo (Ewan McGregor) quando ele esteve jejuando por quarenta dias no deserto. A história acompanha seus últimos dias no local, onde já debilitado fisicamente e com fome, Cristo passa a ser tentado pelo Diabo (interpretado pelo próprio Ewan), ao passo que encontra uma família passando por problemas.

Seguindo uma espécie de “tendência” atual de racionalizar alguns temas, o cinema tem rendido filmes interessantes, especialmente no campo da religião. No primeiro semestre, tivemos o envolvente ‘Ressurreição’, que contava os bastidores do desaparecimento do corpo de Cristo sob a ótica de um centurião romano, e particularmente torço para que novos filmes com essa abordagem mais “realista” e menos “tendenciosa” surjam, até para estimular pessoas que não sigam necessariamente tais religiões a conhecer e se interessar por tais histórias. Mas, vale ressaltar que, diferentemente do filme anterior citado, ‘Últimos Dias no Deserto’ deixa qualquer discussão muito mais aberta e aposta em um sentido muito mais metafórico para as ações de Jesus e dos outros personagens.

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Crédito: Divulgação

A grosso modo, poderíamos dizer que o filme tem uma mensagem de amadurecimento espiritual, resistindo às tentações que nos acercam todos os dias. Mas, convém dizer que ‘Últimos Dias no Deserto’ é mais do que simplesmente essa mensagem, assistir ao filme é como uma experiência pessoal, que deve gerar em cada espectador um significado diferente. A direção de Rodrigo Garcia capricha nos detalhes, ao mostrar o cabelo de Cristo prendendo em um galho ou o incômodo de pisar em uma pedra, ou as tentações que vão surgindo sutilmente, tudo servindo para “humanizar” o personagem fazendo o espectador criar certa empatia com ele. Sabemos que ele é Cristo, mas pela forma como está debilitado, parece que está tão próximo de errar como cada um de nós.

Quando Cristo encontra uma família composta por um pai (Ciarán Hinds), um filho (Tye Sheridan) e a mãe que está doente (Ayelet Zurer), as tentações vão ficando cada vez maiores, e talvez aí resida o grande teste de Deus para seu Filho, pois ter fé e ajudar ao próximo pode ser tão importante quanto ajudar a si mesmo. Mas, se Garcia não se arrisca ou se propõe a responder algumas questões, tornando a essência da sua história quase que totalmente subjetiva (o que pode não agradar a muitos espectadores), tecnicamente o filme possui grandes qualidades. A começar pela fotografia do incrível Emmanuel Lubeski, que mais uma vez se aproveita do ambiente exótico para utilizar planos abertos da areia e das montanhas reforçando a sensação de isolamento do personagem.

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Crédito: Divulgação

Destaque também para a boa utilização de sons diegéticos e a trilha sonora econômica de Danny Bensi e Saunder Juriaans (de ‘O Presente’ e ‘O Homem Duplicado’), que dramatiza pontualmente a história nos momentos certos, mantendo a proposta do diretor de fazer um filme mais contemplativo e não manipulando as emoções do espectador constantemente, como a maioria dos filmes costuma fazer. Agora, vocês podem estar se perguntando, tudo isso é lindo, maravilhoso, mas, e o filme, convence? Só assistindo para saber. Como mencionado anteriormente, é uma experiência bastante particular e vai tocar cada pessoa de forma diferente. Vale ressaltar o grande trabalho do elenco, cada um com seu papel conciso, porém de extrema importância para que a trama ‘convencesse’, e de fato é o que acontece, os personagens parecem reais dentro da trama. Sendo assim, ‘Últimos Dias no Deserto’ entrega uma história bastante subjetiva e que não se arrisca, mas ao mesmo tempo, uma experiência bem interessante de ser apreciada.




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