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O Drama

Diretor

Kristoffer Borgli

Gênero

Comédia , Drama

Elenco

Zendaya, Robert Pattinson, Alana Haim

Roteirista

Kristoffer Borgli

Estúdio

A24

Duração

106 minutos

Data de lançamento

09 de abril de 2026

Os planos perfeitos de casamento de um casal entram em caos quando um segredo chocante vem à tona dias antes da cerimônia.

Kristoffer Borgli provou, mais uma vez, que é um diretor a ser observado. Seus dois longas anteriores, Doente de Mim Mesma (2022) e O Homem dos Sonhos (2023) trouxeram um combo de ideias inusitadas e protagonistas complexos. Entre esses, O Homem dos Sonhos foi meu preferido pela conexão da cultura do cancelamento com as expectativas alheias. Em seu novo filme, O Drama, assim como em O Homem dos Sonhos, há uma discussão moral entre o que fazemos e o que pensamos, mas sob um novo prisma, mantendo a autenticidade e a estranheza que já fazem parte da assinatura de seu trabalho. Poucas coisas são tão interessantes quanto um filme que estimula reações e reflexões que não costumam nos vir com naturalidade e é exatamente isso que todos esses filmes fazem.

Para além de Kristoffer Borgli, O Drama chama atenção primeiro por seu elenco, o casal principal é vivido por dois dos atores mais badalados de sua geração: Zendaya e Robert Pattinson. É uma combinação inédita e muito aguardada, mas que também poderia dar errado, nem sempre juntar dois grandes astros é sinônimo de ter um grande casal em cena. Zendaya e Robert Pattinson, no entanto, fazem jus ao seus status. Eles são bonitos e populares, mas acima de tudo são excelentes atores e, como descobrimos em O Drama, têm muita química. Os dois sabem convencer como personagens carismáticos, mas introvertidos e, de uma forma cativante, esquisitos. Esses são Charlie e Emma, dois jovens adultos prestes a se casar. Ao que tudo indica (incluindo os votos que Charlie está escrevendo para o casamento), os dois se dão muito bem, se amam e estão prontos para dar esse próximo passo no relacionamento. Há um ou outro detalhe pequeno, como na primeira vez em que se conheceram, quando Charlie inventou que já tinha lido um livro só porque Emma estava lendo, mas são coisas minúsculas perto da decisão de passarem o resto da vida juntos. A gente acompanha esses momentos-chave do relacionamento através de flashbacks, mas o filme inteiro não segue uma cronologia à risca. A direção de Kristoffer Borgli se utiliza de cortes secos, cenas incompletas ou repetidas para criar um dinamismo desconcertante, mas ideal para a atmosfera do filme. 

Enquanto Charlie e Emma chegam aos últimos preparativos para o grande dia, veem algo inusitado na rua: a DJ que eles contrataram usando heroína. Eles têm uma breve discussão sobre o que fazer com essa informação; eles devem demiti-la ou devem apenas ignorar? Heroína é uma droga pesada, não apenas uma droga recreativa, mas ao mesmo tempo, que influência isso têm no seu trabalho como DJ por algumas horas num único dia? Contexto, suposições e atenuantes são discutidos sem que eles cheguem a uma decisão de fato. Esse é um acontecimento pequeno, mas é também apenas uma amostra do impasse moral que está por vir. Quando Charlie e Emma estão conversando sobre isso com um casal de amigos, Mike (Mamoudou Athie) e Rachel (Alana Haim), surge um assunto que já começa fadado ao caos: eles querem saber qual a pior coisa que cada um já fez. Histórias bizarras, moralmente questionáveis, são contadas, até que chega a vez de Emma – e ela conta algo infinitamente pior do que os demais. 

É difícil, mas extremamente necessário, falar de O Drama sem spoilers. Desde o trailer até toda divulgação do filme estão centrados no fato de que a personagem de Zendaya tem um segredo que muda tudo – e até faz com que Charlie questione se ainda deve se casar. É um gatilho inquestionável, a curiosidade. No entanto, foi também um movimento arriscado, afinal de contas o sucesso do filme parece depender desse segredo: ele é grande o suficiente? Grave? A grande questão é que não pode ser algo sério demais, que fizesse de Emma uma pessoa automaticamente repugnante, porque então Charlie não teria dúvidas antes de decidir cancelar o casamento, mas também não pode ser algo tão ameno que não possa mudar a visão que todos na mesa, incluindo Charlie, têm de Emma. As opções cabíveis estão numa linha extremamente tênue – mas Kristoffer Borgli escolheu a alternativa perfeita. 

O grande embate de O Drama não está centralizado na gravidade do segredo, e sim na sua relevância para o relacionamento, para a Emma como pessoa e para Charlie como seu parceiro. Sem entrar em detalhes, a pior coisa que a Emma já fez é algo questionável como ação. Aqui, entra uma reflexão parecida com a presente em O Homem dos Sonhos: há ou não há um abismo entre a sua intenção e a sua ação? Até que ponto podemos ser responsabilizados por algo que não ocorre como planejamos? A pior coisa que Emma já fez pode não ter uma influência prática no que ela é hoje, anos depois, mas é o suficiente para alterar tudo que pensam sobre ela, uma vez que descobrem. A quebra de expectativas e a quebra de confiança são os maiores vilões aqui, mas o mais interessante é como essas coisas podem afetar a comunicação e como hipóteses podem destruir realidades. É impossível assistir a O Drama e não tomar partido, ou ao menos refletir sobre os dois lados e entender a complexidade de toda a situação. É um filme que não tem medo de ir fundo, ter discussões difíceis e abordar assuntos sensíveis (extremamente sensível e até polêmico nos EUA, principalmente), flertando com a comédia e o suspense na mesma intensidade. Entre tantos filmes e roteiros que preferem a certeza do óbvio, ou ao menos do esperado, O Drama traz um novo respiro apostando no desconfortável.

Por Júlia Rezende

9

Missão cumprida

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